Vá trabalhar, rapaz!

No post anterior, escrevi sobre a beleza do matrimônio e como as novas comunidades devem formar os jovens para esta magnífica vocação.
Neste artigo, tecerei comentários sobre a beleza do trabalho no mundo.
Eu não poderia iniciar este tema sem uma citação daquele que melhor falou e escreveu sobre a beleza do trabalho no mundo, sobre como a vivência desta realidade pelo cristão é meio de santificação sua e das outras pessoas.
Vamos lá, querido São Josemaria Escrivá!
"O trabalho é a vocação inicial do homem, é uma bênção de Deus, e enganam-se lamentavelmente os que o consideram um castigo. O Senhor, o melhor dos pais, colocou o primeiro homem no paraíso para que trabalhasse. (Sulco, 482).
O trabalho acompanha inevitavelmente a vida do homem sobre a terra. Com ele aparecem o esforço, a fadiga, o cansaço, manifestações da dor e da luta que fazem parte da nossa existência humana atual, e que são sinais da realidade do pecado e da necessidade da redenção. Mas o trabalho em si não é uma pena, nem uma maldição ou um castigo: aqueles que falam assim não leram bem a Sagrada Escritura.
É hora de que todos nós, cristãos, anunciemos bem alto que o trabalho é um dom de Deus, e que não faz nenhum sentido dividir os homens em diferentes categorias, conforme os tipos de trabalho, considerando umas ocupações mais nobres do que as outras. O trabalho, todo o trabalho, é testemunho da dignidade do homem, do seu domínio sobre a criação; é meio de desenvolvimento da personalidade; é vínculo de união com os outros seres; fonte de recursos para o sustento da família; meio de contribuir para o progresso da sociedade em que se vive e para o progresso de toda a humanidade.
Para um cristão, essas perspectivas alargam-se e ampliam-se, porque o trabalho se apresenta como participação na obra criadora de Deus que, ao criar o homem, o abençoou dizendo: Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra e submetei-a, e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves do céu, e sobre todos os animais que se movem sobre a terra. (É Cristo que passa, 47)".
Algumas palavras deste Santo, canonizado pelo Servo de Deus o Papa João Paulo II, chamam a atenção:
1) "O trabalho é a vocação inicial do homem".
Realmente, depois que Deus criou o homem (a humanidade), ele o chamou ao trabalho, vocacionou-o a cooperar com sua obra, como podemos ler em Gênesis 1, 27-31.
2) "O trabalho é meio de desenvolvimento da personalidade".
Fico triste por às vezes ver jovens passarem a tarde e a noite toda em um centro de evangelização, batendo papo, ou até realizando atividades comunitárias mesmo. Se não são chamados à comunidade de vida, deveriam estar estudando, profissionalizando-se ou até mesmo já trabalhando, permitindo assim que o Senhor, como diz São Josemaria Escrivá, desenvolva sua personalidade por meio das atividades próprias do trabalho, do contato com os colegas de emprego, através dos desafios de realizar as tarefas determinadas por seu chefe, ganhando seu justo salário, aprendendo a partilhar com os pais algumas despesas domésticas, a economizar, a evitar o consumismo, a lidar com clientes, com pessoas diferentes. Numa palavra: amadurecendo!
Conheço "jovens" de mais de 30 anos de idade que continuam nessa "vidinha" sob a sombra protetora de comunidades! Dá vontade de dizer bem alto: "Vá trabalhar, rapaz! Não fuja dos problemas de sua casa escondendo-se sob a máscara de um jovem "devotado" à comunidade, que "reza" tanto, tão "piedoso" (às vezes até anda com a cabeça torta, de lado, com um ar "angelical")". 
Que fuga, que desvio da vontade de Deus, o qual quer desenvolver a personalidade do jovem para que ele seja transformado em um homem (uma mulher) que possa assumir o matrimônio, os filhos, o trabalho diário, as responsabilidades de quem está à frente de uma casa, de um lar!
Como as novas comunidades têm responsabilidade por esses jovens! Como se omitem quando veem jovens nessa situação e não os direcionam para os estudos, para o trabalho!
3) "O trabalho se apresenta como participação na obra criadora de Deus".
Há pessoas que pensam que o trabalho serve somente para si, que não tem valor para Deus. É mais ou menos assim: Se estou rezando por alguém lá no pátio do centro de evangelização, então estou fazendo algo para Deus. Se estou elaborando um relatório que meu chefe mandou, então isto não é para Deus, é para meu chefe, para o meu trabalho!
Meu Deus! Que absurdo!
Acabamos de ver que o trabalho, nas palavras de São Josemaria Escrivá, é uma vocação, é uma bênção de Deus! Como pode, então, ter valor inferior a qualquer outra atividade, a rezar por alguém, por exemplo ?
Só pensa o contrário quem vive uma espiritualidade desencarnada, apartada da realidade, esquizofrênica!
Mas vá perguntar isto numa comunidade: O que tem mais valor: pôr a mão sobre a cabeça de alguém e rezar por ele ou fazer um relatório mandado pelo chefe no trabalho ? A imensa maioria, por má formação comunitária, responderá que é a primeira opção.
Esqueceu-se essa maioria das palavras do Senhor, por meio do apóstolo São Paulo:
"Intimamo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que eviteis a convivência de todo irmão que leve vida ociosa e contrária à tradição que de nós tendes recebido. Sabeis perfeitamente o que deveis fazer para nos imitar. Não temos vivido entre vós desregradamente, nem temos comido de graça o pão de ninguém. Mas, com trabalho e fadiga, labutamos noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós. Não porque não tivéssemos direito para isso, mas foi para vos oferecer em nós mesmos um exemplo a imitar. Aliás, quando estávamos convosco, nós vos dizíamos formalmente: Quem não quiser trabalhar, não tem o direito de comer. Entretanto, soubemos que entre vós há alguns desordeiros, vadios, que só se preocupam em intrometer-se em assuntos alheios. A esses indivíduos ordenamos e exortamos a que se dediquem tranquilamente ao trabalho para merecerem ganhar o que comer" (II Tessalonicenses 3, 6-12) (Grifei).
É interessante até perceber a grande contradição nas formações de algumas novas comunidades: Super-incentivam a vocação à comunidade de vida, mas na hora de exortarem pela devolução da comunhão de bens (dízimo, partilha ou outro termo que se use), são implacáveis com aqueles que não recebem formação nenhuma sobre o trabalho: a obra e a comunidade de aliança!
Ora, a comunidade de vida não recebe salário para poder retirar um percentual para o dízimo, mas quem recebe salário, por meio do justo trabalho (vocação e bênção de Deus), são a obra e a comunidade de aliança. Como então não incentivar os jovens à vivência do trabalho, até para poderem ser canais de manutenção econômica das comunidades ? Parece ilógico não formar os jovens para o trabalho no mundo, até sob este ponto de vista econômico, já que Deus quis contar com percentuais dos salários de membros da obra e da comunidade de aliança para a manutenção das novas comunidades!
Mas o mais importante: A formação dos jovens para o trabalho é uma resposta à vontade de Deus, que quer que todos evangelizem estando no mundo, nos escritórios, nas fábricas, nas empresas, nos hospitais, nas escolas, nas universidades, sendo, como diz Jesus, sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5, 13-16).
Deus abençoe você!
Álvaro Amorim. 
Imagem: http://www.sxc.hu/photo/686444. 
Nas citações desta obra ou de parte dela,
inclua obrigatoriamente: Autor: Álvaro Amorim, em http://anunciodaverdade.blogspot.com

2 Comentários:

Jéssica Pacheco comentou:

Concordo com tudo!
Para quem é consagrado a Comunidade de Aliança é através também do trabalho que vai alcançar a santidade, é no trabalho, no meio social o seu lugar de evangelização, de transbordar o Cristo Ressuscitado em nossas vidas para as pessoas, o local de trabalho é o local de missão também.
Eu tenho 18 anos e amo trabalhar, pois isto me edifica, como o Álvaro falou, amadurece muito

Álvaro Amorim comentou:

Cara Jéssica,
Faz parte da essência do ser comunidade de aliança trabalhar no mundo. Isto distingue esta vivência vocacional do chamado à comunidade de vida.
Fico feliz por ver que você compreende seu chamado.
Deus a abençoe sempre!
Álvaro Amorim.

Postar um comentário